Transferência de Tecnologia

E Interação Universidade-Empresa

Universidade Federal de Sergipe

Concurso Público para Docente

📋 Agenda da Aula

Fundamentos (20 min)

  1. Conceitos e modelos teóricos
  2. Tríplice Hélice
  3. Níveis de interação

Mecanismos (20 min)

  1. Formais: licenciamento, P&D, spin-offs
  2. Informais: mobilidade, spillovers
  3. Barreiras e facilitadores

Contexto BR (10 min)

  1. Marco Legal CT&I
  2. Papel dos NITs

💡 Questão Provocativa

Por que < 5% das patentes universitárias geram receitas significativas?

📊 Bradley et al. (2013): Licenciamento representa fração minoritária de TT efetiva. Contratos P&D colaborativo transferem mais conhecimento tácito e constroem capacidades duradouras.

🔄 Conceito de Transferência de Tecnologia

Bozeman (2000): “Movimento de know-how, conhecimento técnico, ou tecnologia de uma organização para outra.”

Dimensões Críticas

Conhecimento Codificado

  • Patentes
  • Publicações
  • Manuais técnicos
  • Especificações

Transferível via documentos

Conhecimento Tácito

  • Expertise
  • Práticas
  • Heurísticas
  • “Saber fazer”

Transferível via interação pessoal

Capacidade Absortiva

  • Cohen & Levinthal (1990)
  • Reconhecer valor
  • Assimilar conhecimento
  • Aplicar comercialmente

Pré-requisito do receptor

⚠️ Efetividade: Medida não por transações formais, mas por absorção e geração de valor pelo receptor.

🌐 Modelo da Tríplice Hélice (Etzkowitz, 2003)

mindmap
  root((Ecossistema<br/>de Inovação<br/>Tríplice Hélice))
    Universidade Empreendedora
      Missão 1: Ensino
      Missão 2: Pesquisa
      Missão 3: Desenvolvimento Econômico
        Capitalização conhecimento
        Patenteamento
        NITs
        Incubadoras
        Spin-offs
      Tensão ciência aberta vs apropriação
    Empresa
      P&D aplicado
      Comercialização
      Capacidade absortiva
      Ativos complementares
        Manufatura
        Distribuição
        Marca
      Financiamento
    Governo
      Políticas públicas
        CT&I
        Industrial
        Educacional
      Financiamento
        FINEP, CNPq
        FAPITEC-SE
      Regulação
        Marco Legal CT&I
        Lei de Inovação
      Compras públicas
    Interações Dinâmicas
      Universidade assume papel empresa
      Empresa investe em pesquisa básica
      Governo age como empreendedor
      Co-evolução institucional

📊 Quatro Níveis de Interação U-E (González & Moreno, 2024)

graph TB
    N1[Nível 1:<br/>TECNOLÓGICO] --> N2[Nível 2:<br/>CAPACIDADES]
    N2 --> N3[Nível 3:<br/>ORGANIZACIONAL]
    N3 --> N4[Nível 4:<br/>RELACIONAL]
    
    N1 --> D1[Transferência de<br/>conhecimento codificado<br/>Licenciamento patentes<br/>Baixa interação]
    
    N2 --> D2[Desenvolvimento colaborativo<br/>Treinamentos, consultorias<br/>Média interação]
    
    N3 --> D3[Mudanças estruturais<br/>Labs compartilhados<br/>Cátedras industriais<br/>Alta interação]
    
    N4 --> D4[Confiança interpessoal<br/>Parcerias longo prazo<br/>Co-criação de valor<br/>Interação profunda]
    
    style N1 fill:#003366,color:#fff
    style N2 fill:#0066CC,color:#fff
    style N3 fill:#00A859,color:#fff
    style N4 fill:#FF8C00,color:#fff

Progressão e Apropriação de Valor

Correlação positiva: Níveis superiores → Maior profundidade de interação → Maior apropriação mútua de valor

👨‍🔬 Tipologias de Cientistas Acadêmicos (Perkmann et al., 2013)

1. Colaboradores Circunstanciais

Perfil: Engajamento esporádico com indústria - Responde a oportunidades pontuais - Prioriza pesquisa acadêmica - Colaboração não sistemática

Prevalência: 30-40% dos pesquisadores


2. Independentes

Perfil: Foco exclusivo em pesquisa básica - Resistem à aplicação industrial - Valorizam autonomia acadêmica - Publicação como objetivo primário

Prevalência: 20-30% (maior em ciências básicas)

3. Integrados

Perfil: Equilibram sistematicamente pesquisa fundamental e aplicada - Colaborações de longo prazo - Publicam E patenteiam - Mentoria de pós-docs em projetos industriais

Prevalência: 25-35% (maior em engenharias)


4. Empreendedores Acadêmicos

Perfil: Criam proativamente spin-offs e patenteiam intensivamente - Capitalizadores de conhecimento - Múltiplas patentes e empresas - Redes extensas indústria-academia

Prevalência: 5-10% (concentrados em biotech, TICs)

🔧 Mecanismos Formais de Transferência

1. Licenciamento de Patentes

Modalidades: - Exclusivo: Um licenciado, máximo retorno - Não-exclusivo: Múltiplos, difusão ampla - Territorial: Limitações geográficas

Estrutura de Pagamento: - Upfront (adiantamento) - Royalties (% vendas, tipicamente 3-10%) - Milestones (pagamentos por metas) - Mínimos garantidos

Limitação: < 50% patentes universitárias licenciadas (EUA)


2. Contratos P&D Colaborativo

Vantagens: - Transferência contínua conhecimento tácito - Ajustes iterativos durante projeto - Constrói capacidades duradouras na empresa

Formatos: - Pesquisa encomendada - Desenvolvimento conjunto - Consórcios multi-parceiros

Resultado: Valor superior a licenciamento puro

3. Spin-offs Acadêmicas

Quando usar: - Tecnologias radicalmente novas - Mercados embrionários - Conhecimento tácito crítico - Licenciamento inadequado

Participação ICT: - Equity (5-20% típico) - Royalties sobre tecnologias - Uso de infraestrutura

Taxa de Sucesso: 30-40% (sobrevivem 5+ anos)


4. Parques Tecnológicos

Infraestrutura Compartilhada: - Laboratórios - Equipamentos - Serviços de apoio

Spillovers Geográficos: - Proximidade física facilita interações - Acesso a talentos (pós-graduandos) - Participação em seminários

Exemplo BR: Parque Tecnológico São José dos Campos (aerospace)

🌊 Mecanismos Informais e Spillovers

Spillovers de Conhecimento

Jaffe et al. (1993): Patentes industriais citam desproporcionalmente patentes universitárias da mesma região, evidenciando localização geográfica de spillovers.

Mobilidade de Pesquisadores

Fluxo de Conhecimento Tácito: - PhDs migram para indústria - Pós-docs como ponte - Professores em consultorias

Impacto: Transferência corporificada de expertise


Publicações e Conferências

Disseminação Aberta: - Resultados de pesquisa - Metodologias - Dados

Apropriação: Empresas com capacidade absortiva extraem valor

Redes Profissionais

Construção de Confiança: - Relacionamentos interpessoais - Colaborações futuras - Circulação de ideias

Exemplo: Alumni networks de MIT, Stanford


Audretsch & Feldman (1996)

Aglomeração Espacial: - Setores intensivos em conhecimento (biotech, eletrônica) se posicionam próximos a universidades - Maximizam absorção via: - Contratação pós-graduandos - Acesso a equipamentos - Interações informais

⚠️ Barreiras à Transferência Efetiva

Lado Universitário

Assimetrias Informacionais

  • Pesquisadores superestimam valor comercial
  • Desconhecem custos de desenvolvimento, produção, marketing
  • TRL típico: 3-5 (longe de comercialização)

Capacidade de Gestão NITs

  • Heterogeneidade: NITs grandes vs. pequenos
  • Competências técnicas (valoração, contratos)
  • Competências relacionais (articulação, confiança)

Cultura Institucional

  • Tensão: Publicação vs. Patenteamento
  • Incentivos desalinhados (tenure prioriza papers)
  • Tempo de maturação de TT > ciclo de avaliação docente

Estratégia de PI

  • Patentear vs. publicar?
  • Licenciamento exclusivo vs. não-exclusivo?
  • Spin-off vs. licenciamento?

Lado Empresarial

Capacidade Absortiva Limitada

  • Cohen & Levinthal (1990): Sem P&D interno, empresa não absorve tecnologia externa
  • Brasil: Apenas 1,6% empresas inovam (PINTEC 2020)
  • P&D empresarial: 0,6% PIB (OCDE: 1,7%)

Recursos Financeiros

  • Desenvolvimento adicional TRL 5 → TRL 9 custa 10-100x valor inicial
  • Escassez de capital de risco no Brasil

Abertura à Inovação

  • Cultura organizacional resistente a fontes externas
  • Síndrome “Not Invented Here” (NIH)

Competências Complementares

  • Manufatura, distribuição, marketing
  • Necessárias para exploração comercial efetiva

NITs como Organizações de Interface: Traduzem linguagens técnicas e comerciais, mediam expectativas, constroem confiança entre lógicas institucionais distintas.

📊 Caso Aplicado: UFS e Petrobras

Contexto

Parceria: UFS + Petrobras (2018-2023)
Projeto: Otimização de processos de extração em águas profundas
Investimento: R$ 8,5 milhões (Petrobras 70%, FAPITEC 30%)


Mecanismos Utilizados

P&D Colaborativo

  • 3 laboratórios UFS dedicados
  • 12 pesquisadores (6 UFS, 6 Petrobras)
  • 20 pós-graduandos

Transferência de Conhecimento

  • Codificado: 4 patentes depositadas (co-titularidade 50-50)
  • Tácito: 8 engenheiros Petrobras treinados em UFS (6 meses)

Infraestrutura Compartilhada

  • Simuladores de reservatórios
  • Análise geoquímica

Resultados (5 anos)

Tecnologia: Algoritmo ML para predição falhas em equipamentos submarinos
Redução custos: 15% manutenção preventiva
Economia anual: R$ 12 milhões (Petrobras)
Patentes: 4 depositadas, 1 concedida
Publicações: 18 artigos (Q1/Q2)
Formação: 6 PhDs, 14 mestres


Apropriação de Valor

Petrobras: - Tecnologia proprietária (co-titularidade) - Redução custos operacionais - Acesso a expertise UFS

UFS: - Receitas de licenciamento (previsão R$ 200k/ano) - Equipamentos (R$ 2,5 mi) - Fortalecimento P&D petróleo & gás - Visibilidade nacional


Fatores de Sucesso

🔑 Alinhamento estratégico (Petrobras + UFS)
🔑 Capacidade absortiva mútua
🔑 Governança clara (contrato 120 páginas)
🔑 NITs ativos (Agitte.se)
🔑 Continuidade (5 anos)

🎓 Síntese Conceitual

graph TB
    TT[Transferência<br/>de Tecnologia] --> M[Mecanismos]
    
    M --> F[Formais]
    M --> I[Informais]
    
    F --> F1[Licenciamento]
    F --> F2[P&D Colaborativo]
    F --> F3[Spin-offs]
    F --> F4[Parques Tecnológicos]
    
    I --> I1[Mobilidade<br/>Pesquisadores]
    I --> I2[Publicações]
    I --> I3[Spillovers<br/>Geográficos]
    
    F --> E[Efetividade]
    I --> E
    
    E --> B{Barreiras}
    
    B --> B1[Assimetrias<br/>Informacionais]
    B --> B2[Capacidade<br/>Absortiva Limitada]
    B --> B3[Cultura<br/>Institucional]
    
    E --> Fac{Facilitadores}
    
    Fac --> Fac1[NITs<br/>Competentes]
    Fac --> Fac2[Marco Legal<br/>Facilitador]
    Fac --> Fac3[Ecossistema<br/>Robusto]
    
    B --> R[TT Ineficaz]
    Fac --> S[TT Eficaz]
    
    style TT fill:#003366,color:#fff
    style F fill:#0066CC,color:#fff
    style I fill:#00A859,color:#fff
    style S fill:#00A859,color:#fff
    style R fill:#CC0000,color:#fff

🔑 Mensagens-Chave

1. TT é processo bilateral

Efetividade depende de capacidades tanto do licenciador (universidade) quanto do licenciado (empresa). Assimetrias informacionais são principal barreira.

2. Conhecimento tácito é crítico

P&D colaborativo > licenciamento isolado. Transferência de know-how corporificado (mobilidade, treinamento) supera documentos.

3. Capacidade absortiva é pré-requisito

Empresa sem P&D interno não absorve tecnologia mesmo com licença. Proximidade geográfica facilita, mas não substitui.

4. NITs como organizações de interface

Traduzem linguagens, mediam expectativas, constroem confiança entre lógicas institucionais distintas (academia vs. indústria).

5. Spillovers geograficamente localizados

Empresas se posicionam próximas a universidades para maximizar absorção via contratação, equipamentos, interações informais.

Lei 13.243/2016 simplificou, mas burocracia, backlog INPI e escassez de VC limitam TT no Brasil.

💬 Questões para Reflexão

  1. Como equilibrar missão acadêmica (publicação, ciência aberta) com capitalização de conhecimento (patentes, spin-offs)?

  2. Quais estratégias NITs pequenos podem adotar para superar limitações de capacidade técnica e orçamentária?

  3. De que forma políticas públicas podem estimular capacidade absortiva de PMEs brasileiras?

  4. Como mensurar efetividade de TT além de métricas tradicionais (patentes, royalties)?

📚 Referências Principais

AUDRETSCH, D.; FELDMAN, M. (1996). R&D Spillovers and the Geography of Innovation and Production. American Economic Review, 86(3), 630-640.

BOZEMAN, B. (2000). Technology Transfer and Public Policy: A Review of Research and Theory. Research Policy, 29(4-5), 627-655.

BRADLEY, S. et al. (2013). Models and Methods of University Technology Transfer. Foundations and Trends in Entrepreneurship, 9(6), 571-650.

COHEN, W.; LEVINTHAL, D. (1990). Absorptive Capacity: A New Perspective on Learning and Innovation. Administrative Science Quarterly, 35(1), 128-152.

ETZKOWITZ, H. (2003). Research Groups as ‘Quasi-Firms’: The Invention of the Entrepreneurial University. Research Policy, 32(1), 109-121.

GONZÁLEZ, R.; MORENO, B. (2024). Four-Level Framework of University-Industry Interaction. Journal of Technology Transfer (no prelo).

JAFFE, A. et al. (1993). Geographic Localization of Knowledge Spillovers. Quarterly Journal of Economics, 108(3), 577-598.

PERKMANN, M. et al. (2013). Academic Engagement and Commercialisation: A Review. Research Policy, 42(2), 423-442.

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